Há mulheres que reclamam do seu parceiro, mas tudo o que fazem só faz piorar as coisas. São especialistas em rezar sermões para que eles se convertam da sua estupidez para a lucidez, do seu radicalismo para o terreno da afetividade. A melhor maneira de descomplicar a mente do homem é, primeiramente, simplificara mente da mulher.
Augusto Cury, Mulheres inteligentes, relações saudáveis.
Entendo os desígnios do destino.
É como se estivessem tatuados por todo o meu corpo. Nos joelhos, nos ombros e nos seios rijos, que comprimo contra a pia para melhor me ver no espelho, com o zelo que deve ter toda mulher ao maquiar-se. De resto, tudo não passa do blush com o qual os infelizes talqueiam o mundo, na vã tentativa de esconder de si sua natureza.
Eu não: aprendi que é fútil lutar contra o inevitável. Se hoje estou com o estojo nas mãos é para atender a um desejo de meu marido ou pelo o meu desejo de suscitá-lo. Qualquer enfeite da mulher é tão bom quanto o elogio que este arranca do seu homem. Minha mão treme. Por mais que o motivo seja um pedido de meu esposo, a razão pela qual nos enfeitamos não poderia me causar maior aflição: seremos visitados pela mãe de Wanderley!
O anúncio da visita, em uma carta de próprio punho, como era de seu feitio, fez pousar entre nós o desconforto silencioso dos pecadores. Afinal, até quando nós três, eu, Wanderley e a nossa “amiga”, poderíamos manter em segredo tal estado de coisas?
Até quando a vizinhança não comentaria o carro extra na garagem, se todos sabem que não dirijo e, se preciso ir ao supermercado ou ao salão, Wanderley não se roga em me pagar um táxi. Quanto tempo até o carteiro questionar o terceiro destinatário sob o mesmo CEP, mas com um sobrenome diferente? Até quando a atendente da farmácia seguraria a pergunta sobre o pedido dobrado de absorventes? Até quando?
Aliviamos nossa tensão em sucessivas noites de planejamentos cerimonialísticos e amor no sofá da sala, onde o brilho da TV projetava nossas sombras bruxuleantes na parede como a medusa. Para nós, estas noites tinham a função dupla de construir um cenário propício para a presença da austera mãe de Wanderley e ao mesmo tempo profaná-lo com nossa volúpia e suor. Quanto mais mencionávamos o nome de sua mãe, maior era a força com a qual nos fazia mulheres e aplacava os desejos de nossa feminilidade.
Há anos não recebíamos qualquer visita da família de Wanderley. Quando nos mudamos para cá, seguindo sua promoção na empresa, sofremos muito pela distância. Wanderley era um homem maduro, senhor de seu destino, mas muito acostumado ao contato e afeto da mãe. Os telefonemas se tornaram menos frequentes com o tempo, como é natural. Anos se passaram com poucas visitas no natal, que fazíamos, no incômodo do amor silencioso que se deve fazer quando na casa alheia. O tempo nos afastara. Agora, não sabíamos o que esperar.
Dona Nazinda era a maior influência na minha vida. Séria, de poucas e sábias palavras, na certeza de que o silêncio da mulher é a fórmula do amor, e que nenhuma mulher, exceto as loucas, mantém seu homem com a palavra. Nazinda era a figura que iluminava o horizonte no mundo permeado de messalinas, de mulheres que se desconheciam e embruteciam nas longas filas das fábricas ou no inverno venenoso dos divórcios. A ela tinha muito a agradecer, pois a sua inabalável postura de mulher preparou Wanderley, meu homem, para ser o varão que ele é e do qual, até pouco tempo, eu desfrutava com exclusividade. Seu gosto e reconhecimento pelo meu amor por Wanderley foi a argamassa do nosso relacionamento e a visita quase surpresa não deixava de ter ares de auditoria sobre meu papel de esposa, amante... mulher...
E se ela me reprovasse por entender que o amor de Wanderley é mais importante que o meu ciúme? Que uma noite de amor com Wanderley me faz esquecer que um dia posso ter sonhado em contrariá-lo? Se não entendesse que tudo que conheço sobre amor aprendi por Wanderley; quem sou eu para questionar os caminhos que ele dá para o nosso? Quem sou eu para negar ao meu homem a saciedade que eu mesma, sozinha, não consigo dar? Dona Nazinda teria que compreender.
Mas entendo os desígnios do destino e estava preparada para tudo!
Na tarde em que ela chegaria, perfumamos o quarto de hóspedes e nos pusemos, eu e nossa amiga, a preparar a ceia com a qual a receberíamos. Não sabia quanto tempo ficaria e pensamos em começar com o pé direito, preparando o escalopinho que era receita de sua família há onze gerações. Seria a primeira prova de que seu filho estava sendo bem tratado. Ela acompanhava a receita sem interferir, na certeza de que sua permanência conosco dependia do aprendizado de pratos como aquele. Ao passar a massa, suas mãos juntaram-se às minhas e nos unimos no artesanato de algo que, ao fim, lembrava pela forma e tamanho o membro intumescido que Wanderley nos oferecia todas as noites. Distraídas com os cuidados do lar, nos flagramos fazendo a sós o que fazíamos com ele e quando a porta abriu, nossos corpos crispados pelo desejo contido incendiavam a cozinha. O sol que já se punha invadiu a sala, desenhando em sombras a imponente silhueta de dona Nazinda na soleira da porta, que abria os braços, dizendo “minha filha!”.
Wanderley acomodava as malas enquanto a sempre elegante senhora passava discretamente o indicador pelos móveis da sala e se alegrava com a completa ausência de poeira. Sentou-se ao balcão e lhe servi o suco de cajá que é seu predileto. Felicitei-a pelo belo vestido e antes que eu pudesse estender os elogios, me disse que a visita seria curta, o suficiente para resolver alguns negócios pendentes, que só poderiam ser resolvidos aqui. Respondi que a casa seria sua pelo tempo que necessitasse. Ela quase sorriu.
Teria feito uma plástica? O volume que pulava das alças sob o casaco de crochê me fazia pensar que sim. Teria seu marido exigido que fizesse, ela que tanto me dissera que é a vaidade da mulher que leva o casamento à ruína, que tantas e tantas vezes deu a entender que certos sacrifícios só valeriam em último caso, para salvar o barco em chamas. Estaria sua vida conjugal em crise? Por isso viera? Os lábios também tinham algo diferente, mais carnudos, joviais, assim como a testa, que não acompanhava os demais movimentos da face quando ela me enchia de elogios pelo cuidado com o lar que abrigava seu rebento. As unhas, muito vermelhas, cintilavam pelo cômodo e antes que eu me desse ao trabalho de exibir minha maquiagem, Wanderley e nossa amiga entraram na sala.
Meu sangue gelou. Não poderia tentar dar a entender que nossa amante era uma simples serviçal, quando a mim era dado exclusivamente os cuidados do lar, e ela sabia disso. Não poderia ser diferente.
Qualquer explicação caberia exclusivamente a Wanderley. Dona Nazinda levantou do balcão e estendeu a mão a ela, num gesto formal e alegre, logo quebrado por um abraço tão fraternal quanto o que me dera minutos antes.
“Está tudo pronto... assim que a Sra quiser poderemos...”, disse nossa amiga, tomando a dianteira sobre o jantar cujo forno ainda assava, a alça do vestido escorregando dos ombros.
“Deixemos os negócios para amanhã, minha querida. Hoje quero ver como está a família....”
O forno avisou com um silvo que o escalopinho estava pronto.

7 comentários:
Gostei do clima de suspense da vinda da sogra, rs =)
po, cara. Ficou legal, mas da pra sentir, ou melhor, prever o que voce ta dizendo! essas ideias se passam quando voce ta chapado. falta uma pitadinha de sobriedade pra realmente a historia fincar. Abraçao e parabens
Ola,
Acabei de assistir sua entrevista no Jô, você é muito criativo. Parabens!
Tambem tenho um blog, aborda um tema diferente mas, para quem gosta de uma boa leitura é uma boa pedida.
Estou seguindo seu blog e sempre que puder recomendarei seu blog!
Mais uma vez Parabens por essa criatividade "impar"
Sds,
ôpa!
Cara, A INTRUSA... tem um forte componente de previsibilidade mesmo. É um folhetim, e escrito nos moldes dos romances populares de banca para mulheres, tipo Júlia e Sabrina.
Os acontecimentos dentro da narrativa devem mesmo seguir uma fórmula o tempo inteiro (e esta fórmula foi identificada por uma autora chamada Pamela Regis, no livro A natural history of the romance novel).
O que me interessa aí é entortar esta fórmula prum contexto local e pruma outra voz feminina, que não aquela do príncipe encantado, do homem rico e tal, daí a coisa vai começar a desandar do previsível. Fica ligado!
Ontem,ou foi hoje mesmo,sem ter o que assistir nos canais aberto de tv, e ainda sem um pingo de sono, me chamou a atenção da chamada do programa do Jô que estava retornando neste ano de 2012.Comecei a assistir as duas primeiras entrevistas muito boas.E o entrevistador até que estava bem no seu lugar.É porque o Jô Soares muitas vezes ofusca o entrevistado.E você fechou com chave de ouro e de inteligencia e criatividade o programa.E que muitos monstros de cheeseburg,sanduiche,cachorro quente,churros e não sei o que mais possam povoar sua mente.E coma os danados e não deixem que eles lhe comam.Um abraço
Eric Arthur aqui das bandas do Piauí
Muito do caralho...gostei do blog!É até chato dizer que vi no Jô, mas fazia tempo que não havia uma entrevista de um desconhecido tão bacana.
Quanto à intrusa gamei nela!
abr e bom serviço
Sanderson, deixa teu endereço aí, rapá, pra gente ver do que se trata!
Valeu, Carolina e Thiago. Já solto o cap 03.
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